| PESSOAS FAMOSAS COM EPILEPSIA - MACHADO DE ASSIS |
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Histórias Imortais A vida de Joaquim Maria Machado de Assis - obscura, pobre, desconhecida - é setor de exploração difícil e principalmente do seu nascimento e da sua infância muito pouco, ou quase nada se sabe. Filho de Francisco José de Assis, mulato, pintor e dourador e Maria Leopoldina Machado, portuguesa da ilha de São Miguel, nasceu em 21 de junho de 1839 e seus antecedentes hereditários, gestacionais e obstétricos são ignorados. A Epilepsia Todos os seus biógrafos lhe fizeram o diagnóstico de epilepsia cujas crises freqüentes foram testemunhadas por muitos e um dos episódios foi fotografado pelo velho Malta, fotógrafo tradicional do Rio antigo. Mas o próprio Machado tinha pudor de sua enfermidade e não aludia a ela senão muito raramente e nunca lhe escrevia o nome, ocultando a doença até dos amigos mais íntimos, como em sua correspondência com o amigo Mário de Alencar: "O muito trabalhar destes últimos dias tem-me trazido alguns fenômenos nervosos...". Esta fobia pela palavra "epilepsia" era tão grande que a excluiu das edições ulteriores de Memórias Póstumas de Brás Cubas, e que deixara escapar na primeira ao descrever o padecimento de Virgília diante da morte do amante: "Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica...", substituída por: "Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa...". Quando alguém lhe notou certa vez a dificuldade com que ele falava por causa das mordeduras da língua, justificava-a como "Estas aftas Estas aftas ". Ocultou-a inclusive da amada e dedicada esposa, Carolina, a quem devotava imensa ternura, não revelando seu problema antes do casamento. Provavelmente, a epilepsia de Machado de Assis teve início na infância, fato declarado pelo próprio Machado, ao tempo do primeiro ataque depois do casamento (uma crise generalizada tônico-clônica) de que sentira, em criança, "umas coisas esquisitas", que não se haviam mais repetido até aquela data. É possível, talvez, que Machado não tivesse tido até então uma crise típica (Pelegrino Jr., 1976). Esta crise denunciou, na idade adulta, a maior tortura da vida de Machado - a epilepsia. Carlos de Laet (citado por Lopes, 1981) assistiu a uma crise e descreveu-a: "... quando de nós se acercou o Machado e dirigiu-me palavras em que não percebi nexo. Encarei-o surpreso e achei-lhe desmudada a fisionomia. Sabendo que de tempos em tempos o salteavam incômodos nervosos, despedi-me do outro cavalheiro, dei o braço ao amigo enfermo, fi-lo tomar um cordial na mais próxima farmácia e só o deixei no bonde das Laranjeiras, quando o vi de todo restabelecido, a proibir-me que o acompanhasse até casa". Lopes (1981), analisando as manifestações clínicas da epilepsia de Machado de Assis sugeriu a ocorrência, muito freqüente pelo menos na última fase da vida, de crises psicomotoras e de crises de grande mal, provavelmente decorrentes de foco temporal e da ínsula. Guerreiro (1992) utilizando os conceitos da epileptologia de nossos dias assinalou que, sem dúvida, suas crises cursavam com alterações da consciência, automatismos e confusão pós crítica e, baseado na associação da emissão de palavras sem nexo, sugeriu o diagnóstico de crises parciais complexas provavelmente originadas no lobo temporal direito. As crises iniciaram na infância, tiveram remissão na adolescência e recidivaram na terceira década, tornando-se mais freqüentes nos últimos anos. Há referências de que Machado de Assis consultou o Dr. Miguel Couto e que tomou brometo. Parece que a droga não foi eficaz e causou alguns efeitos indesejáveis e, a conselho de um amigo, descontinuou o tratamento e optou pela homeopatia (Lopes, 1981). A Humildade, a Cor e a Doença
O pudor da humildade, a vergonha da raça e pobreza, ao lado do seu natural recato de introvertido e do complexo de inferioridade que lhe marcava fundamente o caráter ("aquela desconfiança de si mesmo que por vezes o fazia parecer implicante e orgulhoso") - são elementos suficientes para explicar e justificar este vago mistério que cercou a história dos seus primeiros anos e estiveram presentes em toda a vida do "bruxo do Cosme Velho". Estas características seriam justificadas pela personalidade epileptóide. O epiléptico nem sempre está irritado, porém se mostra com freqüência apático, deprimido e triste, com plena consciência de sua inferioridade social (A. Botelho, citado por Pelegrino Jr., 1976). A afetividade, viscosa e concentrada em poucos e fiéis amigos foi outra característica importante de sua personalidade, a gliscroidia, aludida por muitos (Pelegrino Jr, 1976). Mas seu caráter pode ter sido moldado não pela doença, mas sim por todos os comemorativos de sua vida. Com o agravamento da moléstia, acentuaram-se nitidamente, nas obras da última fase, certas características psicológicas do escritor: o negativismo, o espírito de destruição, a invariável tristeza, aquela melancolia sem fim e sem remédio (Pelegrino Jr, 1976). Esta tendência à depressão dos últimos anos seria, no entanto, mais provavelmente explicada pela presença, já em 1880, de perda visual associada à provável retinite, que obrigou Carolina a ler os textos por Machado. Mas a morte desta, em 1904, sem dúvida exacerbou enormemente esta depressão. A Influência na Obra A preocupação com a loucura esteve presente em vários de seus caracteres, especialmente no O alienista e descreveu uma crise de "automatismo ambulatório" em Rubião, de Quincas Borba, que apresentava paralisia geral progressiva: "Deu por si na Praça da Constituição. Viera andando à toa" e em Brás Cubas, nas Memórias póstumas : "Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do hotel Pharoux. De costume jantava aí; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas que a fizeram". Machado, aliado à sua inteligência e à sua vocação teve uma série de elementos a impulsioná-lo: os recalques por motivo de raça e de origem, infecções intestinais repetidas (uma colite crônica espasmódica, seu mal acessório, já que seu grande mal era a epilepsia que o abatia e torturava), gagueira e a perda visual, que se acrescentou à série de seus males na última metade de sua vida. O Fim Lopes (1981), aluno do grande médico Miguel Couto, que tratou Machado de Assis, referiu que o mestre costumava citar aos seus alunos o exemplo do escritor para quem as crises freqüentes não ocasionaram nenhum comprometimento cognitivo e ao dele, associava o caso de Flaubert. A epilepsia em Machado de Assis, como em Flaubert, exerceu um efeito positivo na quantidade de seu trabalho e sua gigantesca obra é o triunfo pessoal sobre a doença e sobre si mesmo. Os escritos de Machado ao amigo Mário de Alencar, já às portas da morte, da melancólica solidão de seu quarto de enfermo, permitem uma perfeita analogia com a personalidade de Flaubert: "Meu querido amigo, hoje à tarde reli uma página da biografia de Flaubert; achei a mesma solidão e tristeza, e até o mesmo mal, como sabe, o outro...". Ninguém mais se aproximou de Machado de Assis do que Flaubert; a tristeza, desde a infância, a melancolia congênita, o tropismo pela solidão, a angústia pelas crises (Valério, 1930). Quando do lançamento de seu último livro, Memorial de Aires, publicado em julho de 1908, Machado estava muito debilitado pelos seus males e por uma úlcera cancerosa que seus constantes ataques lhe haviam aberto na língua e que lhe impedia de ingerir qualquer alimento sólido. Em casa, cercado de seus poucos amigos fidelíssimos faleceu na madrugada de 29 de setembro de 1908, aos 69 anos de idade. Este texto foi parcialmente publicado em Yacubian EMT e Pinto GRS, 1999 e Yacubian EMT, 2000. |
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